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O
MERCADO ILEGAL DE CIGARROS NO BRASIL
O
lucro fácil, a dificuldade de fiscalização,
a proibição da propaganda de cigarros têm contribuído
para tornar o mercado ilegal de cigarros uma atividade extremamente
lucrativa no Brasil, estimulada, em adição, pela elevada
tributação, sendo certo que quanto maior a carga tributária,
maior será a ilegalidade.
Em
2000, a ilegalidade representou cerca de um terço do total
dos cigarros consumidos no país, equivalente a 45 bilhões
de unidades. No Brasil existem mais de 300 marcas ilegais, incluindo
produtos falsificados (contrafação) e, principalmente,
contrabandeados de países fronteiriços e até
de nações distantes, como a China.

O
mercado formal brasileiro produz cerca de 95 bilhões de cigarros/ano,
gerando uma receita de R$ 6,3 bilhões. O mercado ilegal,
por sua vez, produz 45 bilhões de cigarros/ano, movimenta
R$ 1,7 bilhão e gera uma evasão fiscal de R$ 1,2 bilhão.
Com esta evasão tributária, o governo poderia alfabetizar
12 milhões de pessoas, construir 40 mil creches ou 120 mil
ambulatórios.
A ilegalidade pode ser dividida em três tipos: contrabando
(produto fabricado fora do Brasil, que entra ilegalmente no país),
falsificação ou contrafação (produto
falsificado, comercializado em território brasileiro) e evasão
fiscal (produto fabricado no Brasil sem o pagamento dos impostos
devidos).
No
ano de 2000, o contrabando respondeu por 60% do mercado ilegal,
a falsificação por 20% e a evasão fiscal pelos
20% restantes. Em 2000 ingressaram no território brasileiro
cerca de 9 bilhões de cigarros falsificados.
Algumas
dessas falsificações (produzidas na China) possuem
embalagens de qualidade visual e gráfica excelente, inclusive
com cópias dos selos de controle utilizados no mercado brasileiro
(doméstico e exportação). Cerca de 35 marcas,
das mais de 300 disponíveis no mercado, são falsificações
de produtos dos principais fabricantes instalados no Brasil, e cerca
de 15 marcas possuem intencional semelhança com produtos
legalmente comercializados no país (copy cats).
Fonte: Nielsen/IDS/Mercado
Anualmente,
cerca de 2 bilhões de maços chegam ilegalmente ao
Brasil, principalmente de fabricantes instalados em países
fronteiriços, que produzem volumes muito acima da capacidade
de seus mercados. Uma comparação com os países
que formam o Mercosul nos dá uma melhor noção
da magnitude do problema. O volume do mercado ilegal de cigarros
no Brasil (45 bilhões) supera os mercados internos da Argentina,
do Uruguai e do Paraguai somados, que chegam a 42 bilhões
de cigarros/ano.
|
País
|
Consumo
Nacional
(em bilhões de cigarros/ano)
|
|
Argentina
|
35
|
|
Paraguai
|
3
|
|
Uruguai
|
4
|
|
Total
(Exceto Brasil)
|
42
|
|
Brasil
(Mercado Legal)
|
95
|
|
Brasil
(Mercado Ilegal)
|
45
|
|
Total
Brasil
|
140
|
|
Total
Mercosul
|
182
|
Como Paraguai e Uruguai consomem apenas 7 bilhões de cigarros/ano
e produzem juntos cerca de 58 bilhões de cigarros/ano, conclui-se
que 51 bilhões excedentes sejam direcionados ao mercado brasileiro.
Somente no Paraguai o número de fábricas cresceu cerca
de 70% em um ano, passando de 12 para 20 fábricas. É
importante ressaltar que, em 1993, o Paraguai possuía apenas
três fábricas de cigarro.
Mesmo
em território brasileiro, há diferenças significativas
na distribuição do mercado ilegal. São Paulo,
Pará, Minas Gerais e Bahia são, em termos relativos,
os estados onde a ilegalidade possui a maior participação.
Além do tamanho dos mercados (caso de São Paulo),
a ilegalidade busca os estados onde é maior a tributação.
Os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro elevaram a alíquota
do ICMS sobre o cigarro no início de 1998, e no final de
quatro meses, após constatarem perda de arrecadação
próxima a 35%, decorrente do crescimento do mercado ilegal,
reconsideraram a decisão de elevação da alíquota.
Entre
os principais fatores do comércio ilegal no Brasil estão:
a deficiência na repressão, a sonegação
de impostos, a diferença entre as cargas tributárias
dos países, principalmente os fronteiriços (ver tabela
abaixo), e a diferença entre os preços praticados
nos mercados formal e ilegal.
|
País
|
Carga
Tributária (%)
|
|
Paraguai
|
13
a 16
|
|
EUA
|
34
|
|
México
|
50
|
|
Venezuela
|
56
|
|
Argentina
|
67
|
|
Uruguai
|
67
|
Os
preços dos cigarros praticados no mercado ilegal
são cerca de 45% inferiores aos preços dos cigarros
comercializados legalmente. Isso se deve às elevadas margens
com que a ilegalidade trabalha, já que não recolhe
qualquer tipo de imposto aos cofres públicos. Também
para o varejista torna-se atraente comercializar o produto ilegal,
já que a margem de lucro pode atingir até 60%, contra
8,45% oferecida pelo mercado legal (tabela a seguir).
Em
conseq-ência, os produtos ilegais encontram forte demanda
nas camadas sociais menos favorecidas. As autoridades brasileiras,
cientes do crescimento do mercado ilegal, vêm tomando medidas
com o intuito de solucionar este problema.
|
Mercado
Ilegal
|
Souza
Cruz
(2000)
|
|
Atual
|
Mínimo
|
| Custo
para o fabricante |
0,21%
|
0,21
|
-
|
| Margem
de frabicante |
90%
|
55%
|
-
|
| Preço
ao destribuidor |
0,40
|
0,33
|
-
|
| Margem
do destribuidor |
35%
|
20%
|
-
|
| Preço
ao varejista |
0,54
|
0,39
|
1,20
|
| Margem
do varejista |
60%
|
40%
|
8,45%
|
| Preço
ao consumidor |
0,86
|
0,55
|
1,30
|
|
Jan/00
|
Mar/00
|
Mai/00
|
Jul/00
|
Set/00
|
Nov/00
|
Jan/01
|
| Preço
Médio |
0,86
|
0,81
|
0,79
|
0,72
|
0,77
|
0,74
|
0,75
|
Fonte:
IDS
O preço médio do mercado formal é de R$ 1,32
o maço. No mercado ilegal (vide acima) esse preço
reduz-se para R$ 0,75. Com preços muito inferiores, a tendência
é que o mercado ilegal eleve sua participação
no mercado total. A conseq-ência disso é o prejuízo
para toda a sociedade:
Para o produtor de fumo que, perde com a redução da
demanda;
Para o Governo que, deixa de arrecadar impostos (R$ 1,2 bilhão/ano);
Para a indústria que, enfrenta uma competição
nociva e desigual
Para os consumidores que, ficam expostos a produtos de qualidade
e procedência duvidosas, e;
Para toda a sociedade que, não se beneficia dos investimentos
sociais que poderiam ser alavancados pelos impostos que deixam de
ser recolhidos.
O
mercado brasileiro de cigarros aponta os seguintes números:
-
Em 1995, o mercado formal correspondia a 116 bilhões de cigarros
(cerca de 80% do mercado total) e o mercado informal (ilegal) a
29 bilhões de unidades (cerca de 20% do total).
- De 1995 a 2000, o mercado formal (legal) caiu para 96 bilhões
de unidades e o mercado informal (ilegal) saltou para 45 bilhões
de unidades, passando a representar 32% do mercado total.
Ao contrário dos produtos comercializados legalmente, que
seguem padrões internacionais de qualidade e estão
sujeitos à legislação brasileira (incluindo
a fiscalização da ANVISA - Agência Nacional
de Vigilância Sanitária), os produtos do mercado ilegal
não sofrem qualquer espécie de controle, potencializando
os riscos associados ao consumo de produtos de fumo.
PROIBIÇÃO DE PROPAGANDA FAVORECE A ILEGALIDADE
A
restrição da propaganda de produtos de fumo e, em
especial, de cigarros agravou a situação, já
que o mercado legal não tem como apresentar ao consumidor
suas marcas e evoluções, restando o preço como
único diferencial entre o produto legal e o ilegal. E, neste
quesito, a vantagem é do mercado ilegal, com graves prejuízos
à saúde do consumidor.
Além
de cumprir as exigências da ANVISA, dentre estas a do registro
de todas as marcas e versões comercializadas, com o pagamento
anual de R$ 100 mil por cada uma delas, a indústria também
está obrigada a fornecer uma série de informações
sobre os produtos comercializados, dentre estas análises
sofisticadas, como a medição dos teores de nicotina,
alcatrão, monóxido de carbono, PH, amônia, nitratos
e alcalóides, realizadas, até o momento, exclusivamente,
por laboratórios situados no Canadá. O mercado ilegal,
ao contrário, permanece totalmente à margem deste
e de qualquer outro tipo de regulamentação, fiscalização
e controle sanitário.
Recentemente, foram analisadas 45 marcas comercializadas ilegalmente.
Os resultados são surpreendentes:
-
Apenas 3 marcas podem ser caracterizadas como de baixos teores de
alcatrão, nicotina e monóxido de carbono.
- 27 marcas (60%) não informam os teores do produto na embalagem.
Porém, dentre as 18 marcas que informam os teores, em apenas
quatro estes coincidem com os que constam das embalagens. Nas demais,
os teores reais são bem superiores aos informados.
- 11 marcas possuem em sua composição um agente de
sabor cujo uso foi proibido em diversos países, incluindo
Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra.
- 19 marcas apresentam resíduos de um inseticida organoclorado
não permitido no Brasil para uso em fumo. Outras 19 apresentam
resíduos de pesticidas agrícolas também proibidos
no país, altas concentrações de inseticidas
organofosforados e herbicidas não mais utilizados.
- Todas as marcas analisadas evidenciam a presença de corpos
estranhos, principalmente grãos de areia, barbante, fios
de algodão, capim e sementes de ervas. Também foram
encontrados os seguintes materiais, ainda que em menor escala: plásticos,
insetos, mofo, limalha de ferro (ferrugem), fios de cabelo e penas
de aves.
- 25 marcas (cerca de 56%) apresentam contagem microbiológica
acima dos padrões máximos aceitáveis. Algumas,
inclusive, apresentam altas contagens de fungos.
O
QUE SE PERDE COM A ILEGALIDADE
A
tabela a seguir:
|
Iniciativas
Sociais
|
Quantidade/ano
que poderiam ser produzidas com os recursos da evasão
fiscal do comércio ilegal |
|
Salas
de aula para 30 alunos do 1º Grau (R$5.000)
|
240.000/ano
|
Ambulatórios
Médicos
(R$10.000) |
120.000/ano
|
Casas
Populares
(R$20.000) |
60.000/ano
|
Creche
para 30 crianças
(R$30.000) |
40.000/ano
|
Alfebitização
(10 alunos=R$1.000.000) |
12.000.000
alunos/ano
|
proporciona noção mais exata das reais perdas causadas
pelo mercado ilegal. Na atual conjuntura econômica, na qual
o Governo busca novas fontes de recursos que viabilizem ações
de cunho social, tão necessárias ao país,
o problema do mercado ilegal se torna ainda maior. Considerando
uma perda anual de R$ 1,2 bilhão (ano 2000), deixa-se de
realizar uma série de iniciativas em prol da população.
Fonte: Mercado
Como
se comprova, os únicos beneficiários do mercado
ilegal são os que o fomentam. A ABIFUMO defende junto às
autoridades competentes a necessidade de um maior equilíbrio
entre as cargas tributárias dos diversos países
e a análise de medidas que restrinjam a entrada de produtos
ilegais no país. Certamente, os frutos de uma ação
coordenada, como a ocorrida em países como Canadá
e Espanha, onde os resultados foram excelentes, serão extremamente
importantes para os cofres públicos e benéficos
para a população brasileira
|